Saturday, September 05, 2015
25 anos do CEP 20.000!
"o cep, recital mensal que há 25 anos levanta a bola da poesia no rio de janeiro, comemora aniversário de um quarto de século nesse sábado na oca do parque lage, numa tarde/noite regada a versos, performances, cantos, danças tribais e roda de coco. a onda é boa. o mundo é bom. boralá !"
16h00 - Idjahure (cantos indígenas) - Renascimento - Catarina Lins - Tracy Segal e Ana Chagas - Gringo Carioca - Adiron Marcos - Balalaica - Beatriz Provasi - Tavinho Paes - Luana Costa e Joni Castilho
- Marilene Vieira - Juju Holanda - Breno, Bráulio e Vinicius
- Domingos Guimaraens - Pedro Rocha e Amora Pera
- Ericson Pires Remix (Pedro Lago e Cia). - Vitor Paiva
- Botika - Zarvos - Nil - Éber - Aimberê – Gab Marcondes
- Alex Hamburguer - Cabelo - Justo D’Ávila - Dado Amaral – Carluxo
- Maurição – Xico Chaves - XXV, a peça - Pajelança - Coconomã -
22 hs - fim.
Sunday, August 23, 2015
Tuesday, August 04, 2015
Octavio Paz: A rua / The Street
Octavio Paz / Gringo Carioca
É uma rua longa e silenciosa.
Ando nas trevas e tropeço e caio
e me levanto e piso com pés cegos
as pedras mudas e as folhas secas
e alguém atrás de mim também as pisa:
se me detenho, se detém;
se corro, corre. Volto o rosto: ninguém.
Tudo está escuro e sem saída,
e dou voltas e voltas em esquinas
que dão sempre na rua
onde ninguém me espera nem me segue,
onde eu sigo um homem que tropeça
e se levanta e diz ao ver-me: ninguém.
The Street
Octavio Paz / Gringo Carioca
It’s a long and silent street.
I walk in darkness and trip and fall
and rise and step with blind feet
on mute stones and dry leaves
where somebody behind me also steps:
if I stop, he stops;
if I run, he runs. I turn my face: nobody.
There is no light and no escape,
and I go around and around corners
that always lead to the street
where nobody waits for me or follows me,
where I follow a man who trips
and rises and says when he sees me: nobody.
La calle
Octavio Paz
Es una calle larga y silenciosa.
Ando en tinieblas y tropiezo y caigo
y me levanto y piso con pies ciegos
las piedras mudas y las hojas secas
y alguien detrás de mí también las pisa:
si me detengo, se detiene;
si corro, corre. Vuelvo el rostro: nadie.
Todo está oscuro y sin salida,
y doy vueltas y vueltas en esquinas
que dan siempre a la calle
donde nadie me espera ni me sigue,
donde yo sigo a un hombre que tropieza
y se levanta y dice al verme: nadie.
Octavio Paz
Es una calle larga y silenciosa.
Ando en tinieblas y tropiezo y caigo
y me levanto y piso con pies ciegos
las piedras mudas y las hojas secas
y alguien detrás de mí también las pisa:
si me detengo, se detiene;
si corro, corre. Vuelvo el rostro: nadie.
Todo está oscuro y sin salida,
y doy vueltas y vueltas en esquinas
que dan siempre a la calle
donde nadie me espera ni me sigue,
donde yo sigo a un hombre que tropieza
y se levanta y dice al verme: nadie.
Tuesday, July 28, 2015
"A esquizopoética do CORPO DE FESTIM" em ZONA DA PALAVRA
A esquizopoética do Corpo de festim
Marco Alexandre de Oliveira
Começaremos pela etimologia, o estudo da genealogia das palavras. Por um lado, corpo deriva do latim corpus,
que pode se referir tanto à substância ou matéria em si, quanto à forma
ou figura humana. Também pode denominar o cadáver de um morto, ou até
um conjunto de obras de um autor. Na língua portuguesa, o termo
significa uma série de conceitos relacionados que incluem os citados
acima, além de outros como a “parte principal e central” de qualquer
objeto, inclusive um “texto de obra impressa”.[1]
Por outro lado, festim deriva do latim festa, que se relaciona ao conceito da festividade de um povo durante um feriado. Na língua portuguesa, se o termo festa denomina uma “solenidade”, uma “cerimônia com que se celebra um fato”, uma “comemoração” ou um “fato extraordinário”, o termo festim
significa uma “pequena festa”, um “banquete”, um “festejo particular”
ou uma “festa em família”. Também pode se referir a um “cartucho com um
baixo explosivo, fechado por uma bucha, que se queima com o disparo”.[2]
A poética do Corpo de festim
(2014), de Alexandre Guarnieri, incorpora todas essas definições,
enquanto gera várias outras. Por um lado, a linguagem é substancial,
feita como material de (des)construção de significados múltiplos e
diversos. A técnica é formalista e analisa (bio)logicamente o corpo vivo
até (re)torná-lo morto e dissecado. Os textos impressos expressam a
carne e o osso dos processos orgânicos em (de)composição. E a obra
representa uma amostra de “antropoemas” transcritos e inscritos no
próprio corpo do homem. Por outro lado, o livro é festivo e promove um
festival de sentidos (des)familiares, um banquete de escritos tão
descritivos quanto criativos. Afinal, aponta a sua arma, mira e atira as
suas verdadeiras palavras-balas de mentira contra o corpo linguístico e
literário em si.
Motivo para celebração, esse festim do corpo segue na linha do livro Casa das Máquinas
(2011), mas superficialmente troca a linguagem tecnológica pela
biológica enquanto basicamente funde a tecno-poética com a bio-poética.
Pois se cada máquina em suas peças compõe um corpo, o corpo em suas
partes constitui uma máquina. De certo modo, o Corpo de festim
assim se torna, também, uma “casa das máquinas”, máquinas-poemas
conectadas a máquinas-teorias, cujas ideias são (re)cortes de fontes
(inter)relacionadas: Charles Darwin, Albert Einstein, Stéphane Mallarmé,
Antonin Artaud, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Michel Foucault.
O título do primeiro capítulo do livro,
“DARWIN NÃO JOGA DADOS, MALLARMÉ SIM”, se refere tanto a uma frase
conhecida de Einstein, que certa vez observou que “Deus não joga dados
com o universo”, quanto a um poema pioneiro de Mallarmé, cujo verso
principal diz que “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”. Do mesmo
modo que o fundador da teoria da relatividade nega a incerteza implícita
na teoria da mecânica quântica, Darwin afirma o determinismo explícito
na sua teoria da evolução desenvolvida em Origen das espécies
(1859). Mas se a ciência nova da virada do século XX é predominantemente
determinista, a poesia inovadora da mesma época é concomitantemente
aleatória. Esse movimento se inicia com Um lance de dados
(1897) e continua com as experiências vanguardistas dos futuristas e
dadaístas até culminar com os concretistas. Se, por um lado, as
referências a Einstein e Darwin são evidentes nos discursos científicos
que (in)formam os textos, a referência a Mallarmé é aparente nas
experimentações poéticas que (des)caracterizam o livro, desde a sua
tipografia atípica até a sua composição em decomposição. Foi o crítico
Walter Benjamin que revelou, em seu ensaio “Rua de mão única” (1928),
que a revolução da poesia moderna de Mallarmé representava uma
recuperação da antiga escrita em suas dimensões gráficas ou figurativas.
Essa observação relaciona o poeta aos cientistas revolucionários, que
buscaram delinear uma certa evolução a partir de determinadas origens.
Desse modo, o Corpo de festim
começa traçando a origem e evolução tanto da vida, materializada a
partir do “átomo de carbono”, quanto da escrita, realizada a partir do
“sangue”, “suor” e “celulose”. A série “o átomo de carbono” descreve a
história do corpo desde o big bang cósmico até a
formação do nosso planeta pelas forças de água, ar, fogo e terra, onde
surge a vida em toda a sua (bio)diversidade de formas, culminando com o
nascimento e desenvolvimento do homem. Analogamente, a série “sangue |
suor / e celulose” descreve a biografia do livro como a dilaceração da
pele e a violação do papel, ambos marcados pelo sangue vermelho que logo
vira tinta preta. Esse chamado “livro corporal”, (de)composto de textos
(des)contextualizados, é a (trans)figuração do corpo em livro, e vice
versa, nos versos expressos e impressos. As duas séries paralelas,
portanto, se relacionam e se relativizam no corpo concebido como um
“livro aberto”, cuja “pele” é a “capa” e cujos “órgãos” são os “textos”.
No entanto, uma vez nascido, esse corpo-livro (pre)vê uma escolha
profundamente individual, e fundamentalmente existencial: “revoltar-se”
ou “voltar” às origens. Enfim, o primeiro capítulo termina assim, com um
“bem-vindo” a esse livro-corpo, finalmente (re)tratado como “um
conjunto mecanismo”.[3]
O título do segundo capítulo,
“CORPO-SÓ-ÓRGÃOS”, dialoga com o termo “corpo sem órgãos”, conceituado
originalmente por Artaud e elaborado posteriormente por Deleuze e
Guattari no livro O Anti-Édipo (1972), uma (re)leitura radical e
revolucionária de Sigmund Freud e Karl Marx. Observa-se que “o corpo
pleno sem órgãos é o improdutivo, o estéril, o inengendrado, o
inconsumível. Antonin Artaud o descobriu, lá onde ele se encontrava, sem
forma e sem figura”.[4]
O filósofo e o psicanalista até citam os próprios versos do poeta – “O
corpo é o corpo/ ele está só/ e não precisa de órgão/ o corpo nunca é um
organismo/ os organismos são os inimigos do corpo” – após comentar que
há um “conflito aparente” entre o corpo sem órgãos, que é
“antiprodução”, e as “máquinas desejantes”, que são a “produção de
produção”.[5]
Ao constatar esse processo de produção “primária” e “universal”, que
(re)produz tanto o(s) corpo(s) quanto o mundo em si, nota-se que há “tão
somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de
máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões. Uma máquina-órgão é
conectada a uma máquina-fonte: esta emite um fluxo que a outra corta.”
Por exemplo, o seio materno é “uma máquina que produz leite”, enquanto a
boca infantil é “uma máquina acoplada a ela”. As máquinas desejantes,
portanto, incluem qualquer órgão do corpo, junto com as suas respectivas
funções. Assim, e lembrando o discurso do antropólogo Claude
Lévi-Strauss, “todos somos ‘bricoleurs’; cada um com as suas pequenas máquinas. Uma máquina-órgão para uma máquina-energia, sempre fluxos e cortes”.[6]
O corpo como um todo, inclusive, também pode ser considerado uma
espécie de máquina que, por sua vez, está sempre conectada a outra(s)
máquina(s).
São as máquinas desejantes que, de certo
modo, fazem do corpo um “organismo”. Porém, nesse processo de produção,
“o corpo sofre por estar assim organizado, por não ter outra organização
ou organização nenhuma”. É o caso do esquizofrênico, que deseja
reorganizar tanto o seu corpo quanto o seu mundo para então experimentar
uma nova (des)organização. Como produção de máquinas “desarranjadas” e
peças “desligadas”, o corpo sem órgãos se diferencia do organismo,
portanto, e enfim se identifica como “instinto de morte” ou “corpo pleno
da morte”.[7] Na última análise de Deleuze e Guattari:
O corpo sem órgãos é o improdutivo; no
entanto, é produzido em seu lugar próprio, a seu tempo, na sua síntese
conectiva, como a identidade do produzir e do produto [….] O corpo sem
órgãos não é o testemunho de um nada original, nem o resto de uma
totalidade perdida. E, sobretudo, ele não é uma projeção: nada tem a ver
com o corpo próprio ou com uma imagem do corpo. É o corpo sem imagem.
Ele, o improdutivo, existe aí onde é produzido [….] Ele é
perpetuamente re-injetado na produção [….] O corpo pleno sem órgãos é
antiprodução; mas é ainda uma característica da síntese conectiva ou
produtiva acoplar a produção à antiprodução, a um elemento de
antiprodução. [8]
Desse modo, a referida inimizade ou
“conflito” aparentemente surge porque cada “conexão” ou “produção” das
máquinas desejantes se torna “insuportável” ao corpo sem órgãos na
medida em que, sob os órgãos, se sente “a ação de um Deus que o sabota
ou estrangula ao organizá-lo”. Consequentemente, e ao contrário de um
suposto “contrainvestimento”, há uma “repulsão das máquinas desejantes pelo corpo sem órgãos”.[9]
Existe, assim, uma certa oposição entre “o processo de produção das
máquinas desejantes e a parada improdutiva do corpo sem órgãos”.[10] Ou seja, à produção das “máquinas-órgãos” opõe-se a antiprodução do corpo sem órgãos.[11]
Assim como Deleuze e Guattari
desterritorializam a psicanálise e a reterritorializam como a
“esquizoanálise”, Guarnieri desfaz a psicopoética do organismo e a refaz como a esquizopoética
do “corpo-só-órgãos”, um jogo de palavras que lembra o termo “órgãos
sem corpo”, cunhado pelo também filósofo Slavoj Žižek. Desse modo, ao
invés e ao revés do “objeto não diferenciado” que constitui o “corpo
pleno sem órgãos”,[12]
o “corpo-só-órgãos” seria um objeto diferenciado, um corpo despedaçado
pelas máquinas-órgãos que o (de)compõem. Essas máquinas-órgãos seriam os
próprios poemas do segundo capítulo, cujos títulos já evocam as
diversas partes do corpo (i.e. o baço, os rins, o fígado, o coração, os
pulmões, a pele, a cabeça, os ombros, os joelhos, os pés, o crânio, os
ouvidos, os olhos e o rosto) e seus múltiplos processos fisiológicos.
Destaca-se a série “mecânica dos fluidos”,
que relaciona as secreções corporais (i.e. o sangue, o suor, a lágrima, a
saliva, o sêmen, o leite, a urina, a bile, o pus, a fleugma) às
produções maquinais, pois é o fluxo em si que (inter)conecta as
máquinas-órgãos, segundo Deleuze e Guattari, uma vez que “há sempre uma
máquina produtora de um fluxo, e uma outra que lhe está conectada,
operando um corte, uma extração de fluxo (o seio — a boca)”. Por
exemplo:
Bolsa de águas e cálculos do rim; fluxo
de cabelo, fluxo de baba, fluxo de esperma, de merda ou de urina
produzidos por objetos parciais, constantemente cortados por outros
objetos parciais que, por sua vez, produzem outros fluxos também
recortados por outros objetos parciais. Todo “objeto” supõe a
continuidade de um fluxo, e todo fluxo supõe a fragmentação do objeto.[13]
Ao formular relações com a “esquizoanálise” de Deleuze e Guattari, a esquizopoética de Guarnieri revela múltiplos sentidos tão biológicos quanto psicológicos. Como observa Deleuze em A lógica do sentido (1969), na linguagem esquizofrênica: “Toda palavra é física, afeta imediatamente o corpo”.[15]
O próprio pai da psicanálise, Sigmund Freud, em “O inconsciente”
(1915), antes notou que “a fala esquizofrênica […] torna-se linguagem do órgão.[16]
O “corpo-só-órgãos” assim incorpora não somente uma linguagem, mas
também e principalmente uma poética “esquizofrênica”, que re(a)presentam
o organismo como uma multiplicidade, uma vez que os órgãos transcritos
como “antropoemas” assumem funções outras e estabelecem conexões
diversas. Ao comentar a poesia de Artaud, Deleuze resumiu a produção
linguística do esquizofrênico deste modo:
O procedimento é do seguinte gênero:
uma palavra, frequentemente de natureza alimentar, aparece […] como em
uma colagem que a fixa e a destitui de seu sentido; mas ao mesmo tempo
em que perde seu sentido, a palavra afixada explode em pedaços,
decompõe-se em silabas, letras, sobretudo consoantes que agem
diretamente sobre o corpo, penetrando-o e mortificando-o [….] As partes
do corpo, órgãos, determinam-se em função dos elementos decompostos que
os afetam e os agridem.[17]
De modo análogo, na esquizopoética
de Guarnieri, cada poema é concreto, (trans)forma diretamente o
organismo. O “procedimento” é o seguinte: um poema, geralmente de
natureza fisiológica, surge como em um texto que (sobre)determina e
des(cons)troe o seu conteúdo; concomitantemente, o determinado poema
desfaz-se em frases, decompõe-se em palavras, sílabas, sobretudo
pontuação que se inscrevem no corpo, descrevendo-o e transcrevendo-o.
Assim, as partes do corpo, os órgãos, re(des)organizam-se em função dos
elementos decompostos que os (trans)formam e transgridem.
O título do terceiro capítulo, “VIGIAR E
PUNIR”, se refere ao livro homônimo escrito por Foucault (1975), que
dialoga com Deleuze e Guattari ao observar como o corpo humano, enquanto
organismo, tem sido dom(in)ado pelo poder na modernidade. O objetivo do
livro, segundo o filósofo, é escrever “uma história da alma moderna em
julgamento” a partir de “uma tecnologia política do corpo”, para então
poder compreender como “um modo específico de sujeição pôde dar origem
ao homem como objeto de saber para um discurso com status ‘científico’”.[18]
Esse “discurso”, de certo modo, incorpora toda a episteme da
modernidade, em que o humanismo (re)aparece (in)vestido do capitalismo.
Para Foucault, o homem está literalmente e figurativamente sujeito a uma
“economia política” do corpo, que não necessariamente se baseia em uma
“história” do corpo biológica ou sociológica. À princípio, o corpo está
envolvido em um “campo político” que está (inter)relacionado à sua
“utilização econômica”.[19]
Assim, se “é como força de produção que o corpo é investido por
relações de poder e de dominação”, ao mesmo tempo, “sua constituição
como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de
sujeição”. Ou seja, o corpo em si torna-se “força útil” apenas na medida
em que é tanto “corpo produtivo” quanto “corpo submisso”.[20]
A chamada “tecnologia política do corpo”, então, se constitui por “um
‘saber’ do corpo que não é exatamente a ciência de seu funcionamento, e
um controle de suas forças que é mais que a capacidade de vencê-las”.[21]
Essa tecnologia trata-se de “uma microfísica do poder” cuja história
seria “uma genealogia da ‘alma’ moderna”, uma alma que não é ilusória
nem ideológica mas é real e “produzida” no corpo pelo exercício do poder
sobre todos “os que são fixados a um aparelho de produção e controlados
durante toda a existência”. Para concluir, como observa Foucault:
Esta alma real e incorpórea não é
absolutamente substância; é o elemento onde se articulam os efeitos de
um certo tipo de poder e a referência de um saber, a engrenagem pela
qual as relações de poder dão lugar a um saber possível, e o saber
reconduz e reforça os efeitos de poder. Sobre essa realidade-referência,
vários conceitos foram construídos e campos de análise foram
demarcados: psique, subjetividade, personalidade, consciência, etc.;
sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir
dela, valorizaram-se as reivindicações morais do humanismo.[22]
Origem epistemológica do sujeito
moderno, a alma humana assim se revela como “uma peça no domínio
exercido pelo poder sobre o corpo”, ou então, como “efeito e instrumento
de uma anatomia política”. Em suma, e ao contrário da alma clássica ou
medieval, que era presa dentro do corpo, a alma moderna figura como a
“prisão do corpo”.[23]
De certo modo, é a imagem do corpo preso que ilustra o espírito de Corpo de festim,
cuja capa apresenta o mágico Harry Houdini todo algemado, enquanto
almeja fugir. Como o artista da fome de Franz Kafka, o ilusionista
aparece apenas para desaparecer no final, como um sujeito livre de
sujeição. No entanto, há de passar pelo estado do “vigiar e punir” para
então poder sonhar com a liberdade de não ser mais um ser human(izad)o.
Os poemas do último capítulo assim observam o corpo subjugado pelas
forças do poder que o organizam em forma de organismo produtivo, ao
mesmo tempo que a sua “personalidade” esquizofrênica procura a cura
através da transgressão e subversão dos (im)próprios modos de ser.
Em “ânus humano ( . ) ônus santo”, o
órgão tradicionalmente (não) visto como tabu, retratado como “obscuro” e
“sujo”, vem à luz como “binômio ambíguo, um doloroso alívio, entre a
punição e o prêmio”, uma fonte de prazer desprezível através do acesso
proibido. Conforme já dito, esse desejo para os órgãos realizarem outras
funções ou conexões é característico do esquizofrênico, assim como a
vontade para as palavras representarem outros significados ou sentidos. O
título do poema, por exemplo, segue o procedimento de uma linguagem
esquizofrênica, e consequentemente concreta, que associa as palavras
“ânus” e “ônus” na base da sua semelhança fonética, enquanto contrapõe
as palavras “humano” e “santo” para então poder relacioná-las. Por fim, a
pontuação também acentua uma certa esquizofrenia ao representar
tipograficamente a forma de duas nádegas e um “orifício”.[24]
Do mesmo modo, os outros poemas do capítulo assinalam a esquizopoética
dos chamados “antropoemas” sobre o corpo que o (de)compõem. Em relação à
estrutura, os títulos “biótopo”, “cotidianometria” e “limitrofagia”
constituem neologismos formados a partir da (trans)fusão de palavras,
prefixos e sufixos (i.e. biótipo + topo; cotidiano + -metria; limite +
fagía). Em relação ao conteúdo, esses e outros poemas expressam tanto a
sensação de ficar preso a um “sistema de sujeição”, como diria Foucault,
quanto o sentimento de “repulsão” por ser ou estar sujeito aos
processos de produção, como diriam Deleuze e Guattari. Assim, “o sono” e
“a preguiça” são relacionados ao “ócio”, enquanto o corpo é submetido à
“prova”, ao exame, ao remédio, à medida, ao limite, até que encontra a
(re)solução de morrer, de voltar na forma de uma “retrogressão” ou de
revoltar-se na forma de uma revolução contra o próprio organismo através
do suicídio.[25]
Percebe-se, enfim, a existência
esquizofrênica de um cisma profundo dentro do corpo do homem, no
(re)conhecimento da sua própria “alteridade”, ou identidade fundada em
diferença. Pois além do corpo há uma “outra coisa”, uma coisa
“desabitada de si”, uma coisa “quase vazia” e “firmada no nada, no
vácuo”, que essencialmente habita um entre–lugar,
“entre moléculas, entre partículas elétricas, entre ondas de rádio,
entre vórtices de ar […] entre a fronteira do campo de visão e uma
esfera de conceito […] entre o tempo e o espaço, entre a hora e o
atraso, entre o vivo e o morto”. Desde os diversos “interstícios” essa
“outra” coisa, seja um “vulto” ou uma “aura”, que talvez exista “pelo
espaço vazio entre os corpos”, que é tanto “causa” quanto
“consequência”, é afirmada como “algo inglório”, como “o que poderia
impedir de evadir-se a si própria”.[26]
Portanto, é essa (outra) coisa que finalmente deveria ser destruída
através da morte do corpo, cuja “necropsia” significaria a extinção do
“homem” em si. Se, por um lado, “o cadáver já navega ( a balsa
compulsória sobre a lâmina d’água ), entregue ao necrotério”, por outro
lado, “vai-se mais um morto para o rio estige”.[27]
[….] EU me revelo subitamente
egresso de algum túnel até então ocultado e surjo não menos demiúrgico,
neste exato momento do espetáculo, talvez o mais obscuro, por sobre
cujas palavras arbitrárias se erguem unicamente as escolhas do MEU
monstruoso critério estético e, como frankenstein, EU sou
este poeta, sou o autor deste poema (onde o excêntrico cientista e a
brutal criatura se misturam), sou EU o prisioneiro solitário desta cela
simétrica a 35 graus entígrados (são braços e pernas, são duas janelas)
cujas paredes de células me encerram na vigília das sensações que se
elevam à quase exaustão do estar em mim, enquanto criador deste
específico livro de poemas cujo título corpo de festim
revisita a minha própria sina de estar vivo e produtivo, mas não
faria mal descobrir o mecanismo, o gatilho, de cometer o único crime
previsível, quiçá um icônico suicídio pela honra, ritualizado à moda
nipônica, para destituir-me enquanto símbolo terrível, do self à tal persona poética, de toda a libido, do meu “EU-lírico” (esse serial killer, ou o meu místico inner being) [….][28]
Através do discurso do “poeta”, que se
autorrefere tanto como “persona poética” quanto como “EU-lírico”,
percebe-se a fala ou escrita esquizofrênica do homem “prisioneiro”
dentro do corpo, onde está “vivo e produtivo”. A princípio, o trecho
citado acima lembra tanto de Foucault em Vigiar e punir, quando discursa sobre o corpo “preso” e “produtivo”, quanto de Deleuze e Guattari em Anti–Édipo,
quando discursam sobre o “corpo sem órgãos”, (in)definido como “o
modelo da morte” que “aparece quando o corpo sem órgãos repele e depõe
os órgãos — nem boca, nem língua, nem dentes… até à automutilação, até
ao suicídio”.[29] Ao relacionar analogicamente o corpo com a mandala,
uma representação do cosmos em forma de diagrama que é utilizada em
rituais tântricos de meditação, o poema também encenaria ora o movimento
para uma (im)possível (re)união entre o ser humano (individual) e um
Ser divino (universal), entre o eu e um Deus, ora o processo
para uma (não) eventual (re)unificação das partes do ser fragmentado. Se
por um lado o poeta enquanto homem se identifica com a sua alma e seu corpo, por outro lado, ao desejar se “destituir” da sua “persona”, o homem enquanto poeta
finalmente (re)conhece que é o seu próprio “ego” que o faz ser um “EU”
sujeito, e não um OUTRO livre. Produz-se, enfim, o desejo de produzir um
produto improdutivo, ou até improdutível: a poesia sem o poeta. O poeta
assim se tornaria, como Houdini, “o artista desaparecido sem deixar
vestígio”, pois só poderia “livrar-se dos cadeados e das grades […] se
fosse possível simplesmente, e para sempre, DESAPARECER DE VEZ”. [30]
Sem a identidade do poeta “EM SI”, não
haveria mais o uni-verso unitário dos poemas, haveria apenas os
multi-versos diversos da poesia. Na esquizopoética de Guarnieri, o “EU” não está mais preso no corpo nem é mais a prisão do corpo, pois nos “antropoemas” que (de)compõem o Corpo de festim, o próprio homem é literalmente e figurativamente (re)escrito, tanto
pelo corpo do livro quanto pelo livro do corpo, como poema objeto e não
sujeito à (in)corporação. Afinal, tanto as máquinas-poemas quanto as
máquinas-teorias estão plenamente desarranjadas e desligadas, e assim
funcionam!
[2] http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=festa;
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=festim
[3] GUARNIERI, Alexandre. Corpo de festim – antropoemas. Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2014, 13-31.
[4] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34, 2010, p.20.
[5] Ibid., 18.
[6] Ibid., 11.
[7] Ibid., 20.
[8] Ibid., 20-21.
[9] Ibid., 21.
[10] Ibid., 22.
[11] Ibid., 21.
[12] Ibid., 20.
[13] Ibid., 16.
[14] Ibid., 20.
[15] DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974.
[16] FREUD, Sigmund. “O inconsciente”. Em: Sigmund Freud obras completas volume 12: Introdução ao narcisismo, Ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 103.
[17] DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974.
[18] FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2004, p. 23-24.
[19] Ibid., 25.
[20] Ibid., 25-26.
[21] Ibid., 26.
[22] Ibid., 26-29.
[23] Ibid., 29.
[24] GUARNIERI, Alexandre. Corpo de festim – antropoemas. Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2014, 82-83.
[25] Ibid., 84-101.
[26] Ibid., 102-103.
[27] Ibid., 104-105.
[28] Ibid., 106-107.
[29] DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Trad. Luiz B. L. Orlandi. São Paulo: Ed. 34, 2010, p.435.
[30] GUARNIERI, Alexandre. Corpo de festim – antropoemas. Rio de Janeiro, Confraria do Vento, 2014, 106-107.
[Fonte: https://zonadapalavra.wordpress.com/2015/07/24/resenha-sobre-corpo-de-festim-de-alexandre-guarnieri-por-marco-alexandre-de-oliveira/]
Friday, July 10, 2015
Resenha do REFLEXOS & REFLEXÕES, por Luiza Lobo
Resenha: “Reflexos & reflexões” de Marco Alexandre de Oliveira (Gringo Carioca)
Reflexos & reflexões, Gringo Carioca (pseud. de Marco Alexandre de Oliveira), Rio de Janeiro, Oito e meio, 2014. 87 p. ISBN 978-85-63883-60-5.
Luiza Lobo
Rio, março de 2015
É inegável a impregnação concretista, neste Reflexos & reflexões(2014), de Marco Alexandre de Oliveira, que o publica com o pseudônimo de Gringo Carioca, e nem poderia deixar de ser. Em seus trabalhos em congressos e na própria tese de Doutorado estudou bastante a poesia de base concretista, em suas idas e vindas entre os Estados Unidos e o Brasil. Brasileiro, mas educado nos Estados Unidos, há alguns anos decidiu aventurar-se e fixar-se aqui, o que lhe rendeu a confortável posição de bilíngue.
O livro de poesia, se não me engano o seu primeiro, surpreende pela maturidade do autor – embora tal surpresa não devesse ocorrer, dada a quantidade de estudos que este aluno de “honours” nos EUA já realizou. Chegando ao Brasil, logo desbravou os espaços do ensino, saltando do IBEU para a PUC, como quem vai e volta até a esquina.
O livro se abre muito inventivo, trazendo definições dicionários de reflexo e de reflexão, seguindo o modelo modernista de Eliot, no Waste Land, que nos preparou boas armadilhas em forma de boutade com supostas fontes utilizadas no seu The Waste Land. Mas aqui Marco segue à risca a ideia de reflexo, em que a verossimilhança entre objeto e imagem é estilhaçada, o que nos leva à reflexão.
Passado o susto inicial, deparamos com um índice – realmente índice, indício de palavras-guias, e não sumário, a rigor – de três páginas, que são um primor de súmula do pós-moderno. A maior parte dos títulos tem uma ou duas palavras, por vezes artigo e substantivo. Já este “índice” indica a linha concretista paródica e crítica escolhida pelo jovem autor: um corte seguro nas palavras e na realidade cotidiana levando a metáfora a tal extremo que esvazia a poesia de todo substrato sentimentalóide que em geral permeia a poesia contemporânea. Menos Drummond, nos seus momentos mais piegas, e mais Cabral, Augusto e Haroldo de Campos, ou Décio Pignatari nas suas fases mais cortantes.
Este corte no senso comum fica evidente em títulos como “sem zen”, “senso (in)comum”, “só lido”, “zazen” etc. Para completar o espírito de criatividade, o rapaz ainda faz uma intertextualidade com os dois sumários de Guimarães Rosa em Tutameia, que apresenta diversos jogo com as letras do alfabeto, seja nos sumários, seja no nome das personagens. Assim, os poemas vão de a a z, e todos os títulos vêm em minúsculas.
O famosíssimo Poema de sete faces, de Alguma poesia (1929), de Drummond, Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida, tão parodiado, inclusive na conhecida versão de Torquato Neto, ganha aqui uma inventiva releitura carioca, intitulada “poema de 7 caras”, que começa: “Quando nasci, um anjo malandro / desses que vivem na Lapa / disse: Vai, gringo! ser carioca na vida.” Engenhoso também na sua penúltima estrofe, quando apresenta este auto-retrato: “Mundo mundo vagabundo / se fosse profundo / seria até bacana, não seria esse lixão. / Mundo mundo vagabundo / mais vago que nem palavrão. // Eu devo acrescentar / que esse sol / que esse sotaque / deixam a língua enrolada como outra” (2014, p. 57).
Mas há outras páginas menos paródicas com relação à poesia lírica modernista, mesmo que ainda tenham um travo do “para que tantas pernas, meu Deus?” da última estrofe do Poema de sete faces: “Eu não devia te dizer / mas essa lua /
mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo” e que mergulham mais profundamente no concretismo, como o “para poesia pura”: para que poesia, / poesia para quê? // para poesia, / “poesia para” // poesia que para, / para que poesia // para poesia, / “poesia pura” (2014, p. 52).
mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo” e que mergulham mais profundamente no concretismo, como o “para poesia pura”: para que poesia, / poesia para quê? // para poesia, / “poesia para” // poesia que para, / para que poesia // para poesia, / “poesia pura” (2014, p. 52).
Já noutros momentos a opção concretista é um fato – mas que não perde o sentido de mensagem, o que às vezes desaparecia no excessivo afã visual, na poesia concretista. É o caso do poema “perguntas”, título que aparece no índice, mas que na pág. 55 tem apenas ao alto sete pontos de interrogação; o poema se compõe exclusivamente de pontos de interrogação formando um enorme ponto idem. O recurso da interrogação tem uma variante cujo título, no índice, é “charadas”, mas que na pág. 31 surge apenas como vários pontos de interrogação em negrito sugerindo diversas perguntas, enigmas ou charadas.
“Tão alone” (2014, p. 79) é um poema bilíngue que diz tudo com muito pouco: “tão alone / So só”, no qual duas palavras são em português, tão e só, e duas em inglês, alone e so – que por acaso também significa tão, o que reduz a estrutura desse poema a dois versos redundantes, misturando línguas. “Zazen” (2014, p. 85), o último poema da mostra, joga com as letras z e a palavra zazen na forma de uma pessoa meditando e faz jus ao título do livro, reflexos & reflexões.
O espelhamento de sílabas, ecos, indagações, palavras, na sua unidade mínima, nos despertam, neste livro, para o vazio do sentido da maior parte de nossas ações diárias, e nos remete para a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida. Isso talvez responda ao verso do poema “para poesia pura” (2014, p. 52) “poesia para quê”. É o próprio poeta que nos responde, no poema visual “por q” (2014, p. 61): ainda uma interrogação dentro de um ovo contém a palavra “quê”, que nada mais é senão um óvulo. Aí está tudo que é um nada. Palavra precisa e certa. Excelente livro.
[Fonte: http://litcult.net/site/reflexos-reflexoes/]
[Fonte: http://litcult.net/site/reflexos-reflexoes/]
Friday, July 03, 2015
Saturday, June 20, 2015
Tuesday, June 09, 2015
Holy Poetry, Batman!
Holy Poetry, Batman!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Agility is holy! Almost is holy! The alphabet is holy!
The Alps are holy! The alter-ego and anagram and apparition and armadillo holy!
The armor plate is holy! the ashtray's holy! the asp is
holy! astronomy is holy! Astringent plum-like fruit is holy!
The Audubon's as holy as the backfire! the ball and
chain are holy as my bank balance is holy!
Bankruptcy is holy the banks are holy bargain basements
are holy the barracuda is holy bat logic is holy!
Holy bat trap holy Benedict Arnold holy bijou holy bikini
holy Bill Of Rights holy birthday cake holy Black Beard holy blackout holy blank
cartridge holy blizzard!
Holy Bluebeard! Holy bouncing boiler plate!
Holy bowler! Holy bull's-eye! Holy bunions caffeine camouflage Captain Nemo Caruso catastrophe & cats!
Holy the chicken coop! Holy chilblains! Holy chocolate
éclair!
Holy Cinderella! Holy Cinemascope! Holy cliche! Same bat time,
same bat channel!
Holy cliffhangers Holy clockwork Holy
Cofax you mean Holy coffin nails Holy cold creeps Holy complications Holy conflagration!
Holy contributing to the delinquency of minors holy corpuscles
holy the cosmos holy the costume party holy crack up holy the crossfire!
Holy the crucial moment holy cryptology holy d'Artagnan holy the detonator holy the disappearing act holy the distortion
holy the diversionary tactics holy Dr. Jekyll and Mr. Hyde holy the egg shells!
Holy encore! epigrams! escape-hatch! explosion! Holy! Fate-worse-than-death!
felony! finishing-touches! fireworks!
Holy the firing squad!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The fishbowl is holy! The flight plan is holy! The
flip-flop is holy! The flood gate is holy! The floor covering and flypaper and
fly trap and fog holy!
The forecast is holy! the fork in the road's holy! the
Fourth Amendment is holy! the Fourth of July is holy! Frankenstein is holy!
Fratricide’s as holy as the frogman! fruit salad is holy as
frying towels are holy!
The funny bone is holy the gall is holy gambles are
holy Gemini are holy geography is holy!
Holy ghost writer holy giveaways holy glow pot holy Golden
Gate holy Graf Zeppelin holy grammar holy graveyards holy greed holy the Green
Card holy the greeting cards!
Holy the guacamole! Holy Guadalcanal!
Holy the gullibility! Holy the gunpowder! Holy haberdashery
hailstorm hairdo hallelujah Halloween hallucination & hamburger!
Holy Hamlet! Holy the hamstrings! Holy the happenstance!
Holy the hardest metal in the world! Holy the harem!
Holy Harshin! Same bat time, same bat channel!
Holy haziness Holy headache Holy headline Holy heart
failure Holy heartbreak Holy Heidelberg Holy helmets!
Holy helplessness holy here we go again holy hi-fi
holy the hieroglyphic holy the high-wire holy the hijackers!
Holy the history holy the hoaxes holy the hole in a
donut holy Hollywood holy the Holocaust holy the homecoming holy the homework
holy the homicide holy hoodwink!
Holy hoof beats! hors d'oeuvre! horseshoes! hostage!
Holy! Hot foot! Houdini! human collector's item! human pearls!
Holy the human pressure cookers!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The human surfboards are holy! The hunting horn is
holy! The hurricane is holy! The hutzpa is holy! Hydraulics and hypnotism and hypodermics
and ice picks holy!
Ice skates are holy! icebergs are holy! impossibility
is holy! impregnability is holy! Incantation is holy!
The Inquisition's as holy as the Interplanetary
Yardstick! the interruptions are holy as iodine is holy!
IT and T is holy the jack-in-the-box is holy the jackpot
is holy the jail break is holy the jaw breaker is holy!
Holy jelly molds holy jet set holy jigsaw puzzles holy
jitter bugs holy Journey to the Center of the Earth holy jumble holy karats
holy key hole holy the key ring holy the kilowatts!
Holy kindergarten! Holy knit one pearl two!
Holy the knock-out drops! Holy the known unknown
flying objects! Holy Kovax Las Vegas leopard levitation liftoff living-end
& lodestone!
Holy Long John Silver! Holy the looking glass! Holy
the love birds!
Holy Luther Burbank! Holy the madness! Holy the magic
lantern! Same bat time, same bat channel!
Holy Magician Holy Main Springs Holy marathon Holy mashed
potatoes Holy masquerade Holy matador Holy mechanical armies!
Holy memory bank holy Merlin holy the Mermaid holy the
merry-go-round holy mesmerism holy the metronome!
Holy the miracles holy the miscast holy the missing
relatives holy the molars holy Mole Hill holy the mucilage holy the multitudes
holy the murder holy the mush!
Holy the naive! New Year's Eve! nick of time! nightmare!
Holy! Non sequiturs! oleo! olfactory! one track bat computer mind!
Holy the oversight!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Oxygen is holy! Paderewski is holy! Paraffin is holy!
The perfect pitch is holy! The pianola and pin cushions and polar front and polar
ice sheet holy!
Polaris is holy! popcorn's holy! potluck is holy! the
pressure cooker is holy! The priceless collection of Etruscan snoods is holy!
The pseudonym's as holy as the purple cannibals! the puzzlers
are holy as the rainbow is holy!
The rats in a trap are holy the ravioli is holy the razor's
edge is holy the recompense is holy the red herring is holy!
Holy red snapper holy reincarnation holy relief holy remote
control robot holy Reshevsky holy return from oblivion holy reverse polarity
holy rheostat holy the ricochet holy Rip Van Winkle!
Holy rising hemlines! Holy the roadblocks!
Holy Robert Louis Stevenson! Holy the rock garden!
Holy the rocking chair Romeo and Juliet rudder safari sarcophagus & sardine!
Holy the scalding! Holy schizophrenia! Holy the sedatives!
Holy self-service! Holy semantics! Holy serpentine! Same
bat time, same bat channel!
Holy sewer pipe Holy shamrocks Holy Sherlock Holmes Holy
show-ups Holy showcase Holy shrinkage Holy shucks!
Holy skull tap holy sky rocket holy the slipped disc holy
the smoke holy the smokestack holy the snowball!
Holy the sonic booms holy the special delivery holy
the spider webs holy the split seconds holy the squirrel cage holy the stalactites
holy the stampede holy the standstills holy the steam valve!
Holy stew pot! stomach aches! stratosphere! stuffing!
Holy! Subliminal! sudden incapacitation! sundials! surprise party!
Holy the switch-a-roo!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The Taj Mahal is holy! The Tartars are holy! Taxation is
holy! Taxidermy is holy! The tee shot and ten toes and terminology and time
bomb holy!
Tintinnabulation is holy! tip-offs are holy! the
Titanic is holy! the tome is holy! The toreador is holy!
The trampoline's as holy as the transistors! the travel
agent is holy as trickery is holy!
The triple feature is holy the trolls and goblins are
holy the tuxedo is holy the uncanny photographic mental processes are holy the understatements
are holy!
Holy underwritten metropolis holy unlikelihood holy unrefillable
prescriptions holy vat holy Venezuela holy vertebrae holy voltage holy waste of
energy holy Wayne Manor holy weaponry!
Holy wedding cake! Holy Wernher von Braun!
Holy the whiskers! Holy the wigs! Holy Zorro!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
Holy the Caped Crusader and his faithful sidekick
Robin...
Copyright © 2015 Marco Alexandre de Oliveira
Copyright © 2015 Marco Alexandre de Oliveira
The Misadventures of Clark Kent
The Misadventures of Clark Kent
Gentler than a lamb!
More stubborn than a mule!
Unable to harm even a fly!
“Look!
Down on the ground!”
“It's not a rat!”
“It's not a dog!”
“It's Clark Kent!”
Clark Kent, a normal guy from a small town who came to the metropolis with hopes and ambitions just like anyone else.
Clark Kent, opponent of crime and corruption, advocate of civil rights, idealistic, romantic believer in the forces of love and kindness, who revealed to be Superman, comic hero of the corporate media, sold the ever-elusive dream of life, liberty, and the pursuit of happiness.
Copyright © 2015 Marco Alexandre de Oliveira
Sunday, March 22, 2015
"Shots in the Dark" (Rodrigo Garcia Lopes)
Brazilian Literature in Translation / Literatura Brasileña en Traducción
Issue / Numero
year/año: 02
issue/numero: # 06
The Troubadour
Author | Autor: Rodrigo Garcia Lopes
Translated by
Marco Alexandre Olivera
Shots in the dark
After finishing breakfast with bacon, country eggs and cake, served by
Gloria, the cook, a corpulent black woman with a generous smile, the
men went into the meeting room. Garden stood up, greeted Lovat and
took a seat next to the table. Blake sat in a corner and started to leaf
through an edition of the local newspaper, the Paraná-Norte. The four-page tabloid
was the enterprise’s main piece of propaganda. Underneath the title PARANÁ
PLANTATIONS — NORTH PARANÁ LAND COMPANY came the words AGENTS
EVERYWHERE.
The cook entered and left a jar of water and three glasses on a tray. She exchanged
a few words with Lovat, who treated her courteously, asking about her
children, her husband, and her health. Then Gloria excused herself and closed the
door. Garden held his safari hat over his lap and examined a few documents. He
was restless.
“So, what happened?” Lovat asked, without beating around the bush.
“We’re still trying to understand. It was a huge blow for us. Nussbaum and
the Müllers were people of the highest order, excellent employees,” Garden said,
shifting in his chair.” According to the sheriff’s report, on August 1 Müller caught
Nussbaum and Magdalene in his bed. The neighbors heard gunshots and screaming
coming from the house that night.”
“Where did they live?”
“In a small house on Heimtal St.”
“I believe I don’t remember the Müllers.”
“They were good doctors. They spoke several languages, which made the
house calls easier. You know, besides malaria, we’ve been having lots of accidents
in the forest, during the clearcutting. The doctor along with his partner and assistant,
Dr. Magdalene, were recommended by Eckstein.”
“Yes, I remember that.”
“They were doing a good job, since we don’t have enough doctors in the city.
It was a tragedy what happened.” Garden took a sip of water and then wiped the
sweat that ran in streams down his face. “Today I feel sorry for not having taken
seriously the rumors that Nussbaum was having an affair with Dr. Magdalene, and
right under his nose. A week before, at a party, employees witnessed the doctor
threaten to kill him if he didn’t stay away from his wife. ‘And if I kill you, nobody’ll
find you,’ he said. Something more serious only didn’t happen right there and then
because Müller was held back,” Garden continued, breathing the air out of his
lungs. “We should’ve transferred Nussbaum to São Paulo for a while.”
“When did you last see Nussbaum?” the lord asked.
“On the night of the incident, right before going home. I had just returned
from city hall around nine o’clock and I decided to get some papers at the company.
I saw lights on and noticed that he was still working. It was common for him to
stay until late at the office. You knew him, you know that when he had some deadline
to meet, his spirit would become attached to work and aloof from the world.
Nussbaum was very dedicated.”
“Yes, very dedicated”, Lovat said. “Did you speak to him before leaving?”
“Quickly. He only asked me to lock the front door, since he had a copy of the
key. I went back, locked it from the outside and went home.”
Blake raised his eyes to the mayor. Garden sat rigid in his chair, arms by his side.
“When did you notice the chief accountant was missing?”, Blake wanted to
know, intruding on the conversation.”
Garden glanced at Blake and then looked at the lord again.
“Well, first we missed the doctors, who usually came to work together. On
the morning following the incident, around eight o’clock, patients came to complain
that the Müllers hadn’t shown up at the hospital. A little later we found out
that Nussbaum also hadn’t come to work. We thought it was strange, since it was
extremely rare for him to miss work, it wasn’t like him. He always asked someone
to tell us when he couldn’t show up. I asked some men to go to his house, but he
wasn’t there. I immediately went after the sheriff, who was already coming back
from the Müllers’ house.”
“The sheriff was the first to arrive at the scene?,” Lovat asked.
“Yes. Early in the morning he had gone looking for one of the neighbors. Besides
hearing the screams and the shots, two neighbors saw the couple inside the
car, leaving the residence.”
“What time was that?”
“Around eleven-thirty at night.”
Garden took a sip of water. Lovat signaled for the company director and city
mayor to continue.
“There was nobody at the house. The door had no sign of being forced open.
The accountant’s automobile was there, but not Müller’s. There was a lot of blood
and bullet holes at the scene. I could see it for myself. He’ll be able to tell you all
of the details.
Lovat stroked his moustache and then asked:
“Do you have any theory about what happened?”
Garden blinked his eyes a little and continued:
“To speak frankly, sir, crimes of passion are common around here. Let’s say
that there is an imbalance between the sexes. There aren’t enough women in the
city. Müller had reasons to be jealous of his wife. Beatings were constant. For me,
he committed the crime to save his honor. He returned from the house call to a
farm earlier than expected, so he caught his wife with Nussbaum. He killed him and
ran away with his wife.”
Lovat stared at Garden for a moment, without saying anything. Garden flexed
his mouth muscles in an attempt to smile.
“I know you’re worried, but I must say that we have already replaced the three
employees. I assure you that this incident has not affected business operations at
all. Our lot sales have not been compromised and...”
The lord slammed his fist on the table. Blake was startled.
“Are you telling me that a crime happens at the company, involving important
employees, and everything is alright?,” Lovat yelled. “Why didn’t anyone tell me
about this?”
Garden dried the sweat on his face with a handkerchief. His jaw constricted.
“It wasn’t our mistake, but that of the branch in São Paulo. They were the ones
who were responsible for breaking the news to the office in London. It’s strange
that Mr. Eckstein didn’t let you know.”
Lovat shook his head, making an impatient face. He looked out the window
and saw the street, the rivers of mud stubbornly refusing to dry. He turned to
Garden and said:
“Nilson, you’re in charge here. How did you let things get to this point? We’ve
got to set the example. This is terrible for business!”
He then stood up, crossed his hands behind his back and started walking
around the room, causing the floorboards to creak. Garden bit his lips under his
little moustache while he followed Lovat’s silent pacing. The lord sat down again,
took a sip of water and asked, with his voice a little calmer:
“What else do you know about Nussbaum’s last steps?”
“What I know is that on that night he stopped by the Eldorado bar. He was
drunk, it seems... He was distressed, and muttered incoherent things. They reported
that he stayed only a little while, said good-bye and mentioned that he was
going to solve a problem.”
“A problem,” Lovat murmured. “Did he say what it was?”
“No, he only said he wasn’t feeling well. He said he needed medical care, and
left. I suggest you talk to Günther and Razgulaeff. They were at the bar and were
some of the last people to see him.”
Lovat agreed and made a vague gesture. Blake finished jotting down the
names in his notebook and raised his head to Lovat.
“What was the Müllers’ routine like?,” the lord asked.
“They didn’t go out much.”
“And?”
“I believe the doctor didn’t like to show off his wife outside the workplace,
except for, every once and a while, at company dances. They were quite reserved.
So much so that they didn’t even have servants.”
“Nothing relevant was found, not even a clue?”
“If so, the sheriff’s got it. He’s the one who did the investigation at the scene.
The Müllers’ house has been abandoned since then, until his family in Germany
decides what to do with the property. Now in his office I assure you nothing was
touched,” Garden said.
“And where is Nussbaum’s house located?” Lovat asked, turning his eyes
again to Garden.
“He lived alone, on Higienópolis, a new avenue that Razgulaeff planned, but
since the incident a family has been living there. We’ve been facing a serious housing
problem for newly arrived buyers. The property belonged to the company.
Nussbaum intended to move soon to the house he was building.”
“What happened to the accountant’s belongings, his personal objects?”
Garden gulped, and tightened his lips. After a few seconds, he said:
“After the incident, his bags, his clothes and the rest of his personal objects
were donated, his little furniture was auctioned and what was left, burned.”
Lovat and Blake looked at each other. The lord snorted and scratched his face.
“And may I know who had such an awful idea?”
“A negligent employee, sir.”
“Where is he?”
Garden took his eyes off Lovat for a few seconds, then stared at him again.
“Mr. Francisco died last month, while he was helping our men cut down a forest
to clear new lots. Yeah, we’ve been seeing many accidents like this.”
Lovat breathed out through his nose. He shook his head for a moment, his
face stern. He glanced sidelong at the newspaper in the chair next to the translator
and turned to the mayor:
“What’s the circulation of the Paraná-Norte?”
“Two thousand copies.”
“Increase it to four thousand. Put an ad in the front, offering a generous reward
to whoever provides any clues that can take us to their whereabouts. Make
posters and spread them in all the train cars from Rolândia to Ourinhos. Surely
there are photographs of them on their contract forms.”
[...]
http://www.machadodeassismagazine.bn.br/new/titulo.php?id_titulos=121&edicao=Edi%C3%A7%C3%A3o%2006
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